O cinema brasileiro tem uma vocação que raramente ocupa as manchetes: a de atravessar fronteiras. Em 2026, essa vocação ganhou dois instrumentos concretos e simultâneos. O Ministério da Cultura (MinC) e a Agência Nacional do Cinema (Ancine), por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e da operação financeira do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), abriram duas chamadas públicas de coprodução internacional: uma com a Argentina e outra com Portugal. Para produtoras(es) e realizadores(as) que sonham em levar histórias brasileiras a plateias de outros países, a janela está aberta, mas não por muito tempo.
A mais urgente delas, a Chamada Pública BRDE/FSA de Coprodução Brasil-Argentina 2026, recebe inscrições até 17 de julho. A segunda, voltada à coprodução Brasil-Portugal, segue aberta até 25 de setembro. Juntas, elas movimentam recursos expressivos do FSA e se conectam a fundos congêneres nos dois países parceiros, num arranjo em que a colaboração entre nações se torna o motor de novos filmes. Diante de prazos curtos e de um desenho técnico exigente, compreender essas oportunidades com precisão é o primeiro passo de qualquer captação bem-sucedida.
Brasil-Argentina: a janela que fecha em julho
Anunciada em 22 de maio de 2026, a Chamada Pública BRDE/FSA de Coprodução Brasil-Argentina seleciona, por concurso público, propostas de longas-metragens de ficção, documentário e animação realizadas em regime de coprodução internacional com a Argentina. O investimento previsto é de aproximadamente R$ 1,5 milhão em recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, principal mecanismo de fomento ao audiovisual brasileiro independente.
O ponto técnico decisivo está na posição da produtora brasileira: a chamada recebe projetos apresentados por produtoras independentes brasileiras que participam como coprodutoras minoritárias. Simultaneamente, do outro lado da fronteira, o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA) organiza uma convocatória equivalente, voltada a projetos em que a parte minoritária é argentina, no valor equivalente a 300 mil dólares. A decisão de investimento cabe a uma Comissão de Seleção mista, formada por profissionais do setor audiovisual e por servidores(as) da Ancine e do INCAA. As inscrições, abertas em 17 de junho, encerram-se em 17 de julho: restam poucos dias para quem ainda articula sua proposta.
Brasil-Portugal: a segunda porta, aberta até setembro
Publicada em 15 de maio de 2026, a Chamada Pública BRDE/FSA de Coprodução Brasil-Portugal 2026 segue a mesma lógica, agora voltada ao intercâmbio com Portugal. Também destinada a longas-metragens de ficção, documentário e animação em regime de coprodução internacional, a chamada prevê um investimento de aproximadamente R$ 2 milhões em recursos do FSA. Do lado português, o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) organiza uma convocatória simultânea, dirigida a projetos em que a parte minoritária é portuguesa, no valor equivalente a 350 mil euros.
O prazo mais dilatado, até 25 de setembro, oferece a produtoras(es) uma margem maior de articulação. A afinidade linguística e histórica entre Brasil e Portugal, somada à porta que o mercado português abre para o circuito europeu, faz dessa chamada uma oportunidade estratégica de circulação e difusão da produção nacional para além das fronteiras da própria língua.
Coproduzir não é apenas dividir custos: é somar imaginários, ampliar públicos e inscrever a cultura brasileira em circuitos internacionais dos quais, historicamente, estivemos à margem.
Coprodução minoritária: o que significa e por que é estratégica
Um termo aparece nas duas chamadas e merece ser explicado com cuidado, porque nele reside a lógica de todo o mecanismo: a coprodução minoritária. Nesse modelo, a produtora brasileira entra no projeto como parceira de participação menor, enquanto a produtora do país estrangeiro assume a parte majoritária, e o inverso ocorre nas convocatórias organizadas pelo INCAA e pelo ICA. Na prática, cada fundo nacional financia a parcela do seu país, e os filmes que emergem desse arranjo passam a ter dupla nacionalidade, com acesso aos incentivos, aos mercados e aos festivais de ambos os territórios.
A importância dessa engrenagem é difícil de exagerar. Para o audiovisual brasileiro, coproduzir significa acessar recursos, competências técnicas e janelas de exibição que dificilmente seriam alcançados de forma isolada. Não por acaso, a internacionalização se tornou eixo declarado da política audiovisual: em edital recente de coproduções internacionais, a Ancine chegou a receber inscrições de 47 países, num movimento que mobilizou cerca de R$ 220 milhões. É a materialização de uma ideia simples e potente: fazer da cultura brasileira uma linguagem que circula, dialoga e movimenta a cadeia produtiva da Economia Criativa em escala global.
Como se preparar para captar
Diante do exposto, faz-se necessário que produtoras(es) interessados(as) tratem esses editais com o rigor técnico que eles exigem. A coprodução internacional pressupõe um contrato de coprodução bem estruturado, parceiro estrangeiro definido, plano de financiamento coerente entre os dois fundos e documentação de habilitação em dia, tanto junto à Ancine quanto ao órgão congênere do país parceiro. Para a chamada com a Argentina, cujo prazo se encerra em 17 de julho, a articulação precisa estar praticamente concluída; para a de Portugal, até 25 de setembro, ainda há tempo de estruturar a parceria com solidez.
Mais do que preencher formulários, elaborar um projeto de coprodução competitivo é um exercício de Gestão Cultural em sua forma mais completa: exige visão artística, inteligência jurídica, planejamento financeiro e capacidade de articulação internacional. É justamente nesse ponto que a assessoria especializada faz diferença, ajudando a transformar uma boa ideia de filme em um projeto tecnicamente sólido, elegível e alinhado aos critérios de cada fundo. Que essas duas janelas, uma que se fecha em julho e outra em setembro, sirvam de convite para que mais realizadores(as) brasileiros(as) contem suas histórias ao mundo, tornando a cultura um bem que circula e se faz democrático para além das nossas fronteiras.
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Fontes: Ministério da Cultura (gov.br/cultura); Agência Nacional do Cinema, Ancine (gov.br/ancine); BRDE, Fundo Setorial do Audiovisual (brde.com.br/fsa); TELA VIVA News (telaviva.com.br); Agência Gov (agenciagov.ebc.com.br).
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Lucas Andrade é Gestor Cultural, Produtor e Pesquisador em Economia Criativa. Coordenador do LabEC — Laboratório de Economia Criativa, atua na elaboração e gestão de projetos culturais aprovados em editais nacionais e internacionais, como Ibermúsicas, Iberescena, Aldir Blanc e Lei Rouanet. Professor, pesquisador e consultor para organizações culturais em todo o Brasil.
